sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Poiret e Versace

O texto abaixo eu escrevi para o fórum do Bloco Sinuosidade da minha pós em Artes Visuais.

A flexibilização de limites é, portanto, uma proposta que surge com a própria modernidade estética e está envolvida na dissolução de fronteiras rígidas entre figura e fundo, objeto e espaço, interior e exterior. Reflita agora sobre as duas fotografias de moda das obras de Poiret e Versace e compare-as do ponto de vista de sua plasticidade.

Debata: como se caracterizam as relações entre corpo e espaço em cada obra?


Como já foi posto pela maioria dos colegas aqui no fórum, este tema revelou-se bem cheio de dilemas, tendo em vista o pouco conhecimento no assunto moda, inclusive o meu. E quando o problema é pouco conhecimento, eu só conheço uma forma de ser solucionado. ESTUDANDO, LENDO. E foi o que fiz, motivo que me levou também a retardar minha participação.

Assim, meu primeiro passo para participar do questionamento acima em relação as obras de Poiret e Versace, foi ir atrás de referências sobre as obras destes dois artistas da moda, para tentar entender como o conceito de plasticidade - que de acordo com o Dicionário Aulete é “Qualidade do que pode ser moldado”, está presente nas duas fotografias abaixo, assim como, conectá-lo ainda com o tema geral do bloco: SINUOSIDADE.

Primeiramente, o que é Sinuosidade? Mais uma vez, de acordo com o Dicionário Aulete:

“1. Característica ou condição de sinuoso; TORTUOSIDADE.

2. Extensão plena de curvas, de movimentos tortuosos (sinuosidade das estradas).

3. Movimento cheio de volteios, de rodeios (sinuosidade da dança)”


Sendo assim, vejamos este vídeo da cantora Kylie Minogue, da música The One: 



O vídeo é cheio de formas e movimentos circulares, linhas sinuosas e repetições de imagens, os chamados padrões geométricos repetitivos, tal como vimos no quadro “as nadadoras” de Rego Monteiro. Todos estes recursos servem de plano para destacar o elemento principal do vídeo: a cantora.











Agora, observemos esta foto, do desfile de Marc Jacobs para Primavera 2011, em NY, agora em setembro:



Aqui, a fotografia tem um papel essencial na forma como a plasticidade se apresenta, lembrando que plasticidade é a qualidade de moldar.

Apesar de não vermos a roupa, os elementos que aparecem transmitem uma forte sensação de sensualidade. Naquele momento, o olhar do fotógrafo não era apresentar o todo, mas o caminho. As partes. No intuito de deixar que o imaginário de quem veja esta foto, em uma revista ou site, idealize o que tem mais além. Ele mostra a sinuosidade das pernas e deixa que a percepção de quem vê a imagem, a complete.

A imagem deixa livre para que o observador molde suas ideias de como seria esta roupa, no seu todo.

Para completar, apresento algumas obras do ilustrador Mads Berg ( http://madsberg.dk ).



A relação figura-fundo que tanto discutimos no bloco anterior, aparece nas obras acima com uma forte expressão de sinuosidade e plasticidade. Os traços curvos e a mistura de cores são marcantes e definem bem o relacionamento do corpo com o espaço que estudamos nas leituras do cd e do texto-síntese deste bloco.

Em todos os exemplos acima, foram observadas as dualidades propostas neste fórum, em relação as obras de Poiret e Versace. Poiret e Versace foram ambos grandes ícones de seus tempos, trouxeram novidades ao mundo da moda e novas interpretações de como interagir com as figuras femininas, com as curvas da mulher.



Na obra de Poiret, observamos o uso da geometria e traços curvos que vimos tanto no vídeo The One, da Kylie, como na obra As Nadadoras, de Rego Monteiro. Assim como, a dualidade que vimos na foto do desfile de Marc Jacobs. Poiret esconde a silhueta feminina deixando que o imaginário coletivo a molde. Este casaco, o Fantasio, rompe com os espartilhos, moda comum da época, e cria o mistério para o que pode estar por debaixo dele. Mas ele também me transmite uma ideia de desconforto com a gola alta, que parece prender os movimentos da cabeça. Ou seja, ao mesmo tempo em que liberta os movimentos quando tira o espartilho da jogada, Poiret parece transferi-lo para o pescoço com o uso da gola alta. Mas ainda assim, uma grande quebra na forma como o vestuário feminino era criado.

Poiret declarou, no seu auge: “I am not commercial. Ladies come to me for a gown as they go to a distinguished painter to get their portraits put on canvas. I am an artist not a dressmaker”.

Ele também foi o pioneiro na relação moda-arte moderna (como vimos com Yves Saint-Laurent/Mondrian) e também na relação moda-perfumes/cosméticos (como vimos com diversos estilistas hoje).





Em Versace, já temos o que vimos nas obras de Mads Berg. Os traços curvos que se misturam, trazendo a dualidade corpo-espaço. Também vimos na obra de Versace o duelo exibir/não exibir que vimos no casaco de Poiret. Mas aqui, esta dualidade é trabalhada com o uso das linhas sinuosas, do jogo de sombras. 

Observe na foto ao lado da coleção Versace de 1995, tendo Madonna como a garota-propaganda da marca e o Steven Meisel, o fotógrafo. O uso de sombras, do claro contrastando com o escuro, dando voluptuosidade às formas, ao vestido.

E para concluir, na imagem abaixo, também do ensaio que o Adriano Gentil já apresentou aqui. Podemos dizer que temos Poiret e Versace juntos. Temos o mistério, o casaco que esconde (no meio) e então, a solução do mistério, ao retirar o casaco, temos a mulher com toda a sua sinuosidade (a imagem da esquerda - com a bolsa) e temos a sinuosidade do vestido longo, com movimentos leves e também com um forte apelo do duelo mostrar / esconder. O movimento faz com que o vestido esconda, mas deixe apenas uma perna amostra, tal como vimos na foto de Herb Rits para Versace.

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Red Kisses,

Chris
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